O Carcharodontosaurus

por: Rafael Delcourt


Imagine que você esteja caminhando em uma floresta de coníferas ao norte do estado do Maranhão. Mas não é um Maranhão que você conhece atualmente. É um Maranhão mais antigo, do Período Cretáceo, de uma época chamada Cenomaniano, de 100 milhões de anos atrás. Um Maranhão com um clima mais quente, mais seco e com mais oxigênio no ar, deixando o ar mais denso. Nesse ambiente, tudo é novo para você, especialmente seus habitantes.

Você ouve um barulho de passos, mas são passos mais pesados que qualquer animal que vive atualmente. São passos de um animal de 14 toneladas e de 13 metros de comprimento [1] (Fig. 1). Quando você olha para frente, se depara com uma perna tão grossa e musculosa, que mais parece um tronco de árvore. Você olha para cima e vê uma cabeça gigante, com 1,60 metros de comprimento que está presa a uns 4 metros de altura em um pescoço extremamente forte, coberto com uns filamentos que lembram penas ou pelos grossos. A parte anterior da cabeça é bem rugosa, principalmente perto da boca, e quando o animal abre, você observa os dentes afiados e achatados lateralmente (ou labiolingualmente se preferir). Esses dentes são todos serrilhados e o esmalte apresenta uma superfície rugosa e ondulada, mas o formato de faca denuncia que o animal era estritamente carnívoro. A boca fede a carniça e moscas rodeiam a cabeça do animal. Você repara também que a cabeça e o pescoço apresentam muitas cicatrizes de batalhas antigas que deixaram suas marcas na pele. Os braços do animal são relativamente curtos e as mãos terminam em três dedos com garras afiadas, assim como os dedos dos pés. Nesses você observa que a pele é diferente, parecendo mais escamas de pés de avestruzes do que de algum outro réptil. E por fim, você percebe uma outra característica nesse animal: ele é maior que o Tyrannosaurus rex.



Figura 1. Escala comparativa Homo s. sapiens, Panthera onca, Carcharodontosaurus saharicus por Hugo Cafasso, Dino Hazard.


Conheça o Carcharodontosaurus


Carcharodontosaurus significa literalmente réptil com dente de Carcharodon, que é o gênero (primeira parte do nome científico) do grande tubarão branco. Mas também significa réptil (saurus, grego) com dente (odon, grego) afiado (karchas, grego). A pronúncia do nome latinizado é diferente do Português; portanto chamamos o bicho de “carcarodontossauro” (Fig. 2).

O Carcharodontosaurus foi um dinossauro carnívoro da ordem Theropoda, que incluí animais como o T. rex, Velociraptor, Carnotaurus e o peru de Natal que comemos todos os anos [2]. Foi originalmente descoberto no norte da África, na Argélia, e a espécie foi nomeada de Megalosaurus saharicus baseada no registro fóssil de dois dentes no ano de 1927 por Depéret e Savornin.

Posteriormente, a espécie foi transferida para um novo gênero, e passou a se chamar Carcharodontosaurus saharicus baseada em materiais mais completos do crânio a partir dos trabalhos de Stromer em 1931. Esses materiais foram encontrados no Egito e levados ao museu de Munique na Alemanha. Mas infelizmente os bombardeios ingleses destruíram o museu junto com os materiais fósseis do Carcharodontosaurus, assim como outros materiais importantes (como o Spinosaurus). Apenas recentemente, em 1995, que Sereno e colaboradores encontraram materiais mais completos do crânio de Carcharodontosaurus e que depois foram considerados como materiais que representam a espécie [3] (Fig. 3).



Figura 2. Reconstrução em vida do Carcharodontosaurus saharicus por Hugo Cafasso, Dino Hazard.


O Carcharodontosaurus foi o principal predador durante o início do Cretáceo Superior no norte da África e... no Brasil! Mesmo dividindo o ambiente com predadores maiores como o Spinosaurus aegyptiacus (África) e o Oxalaia quilombensis (Brasil), o Carcharodontosaurus era o grande predador terrestre, já que esses últimos tinham adaptações para vida semiaquática [4,5]. Certamente pelo seu tamanho avantajado, tinha a capacidade de se alimentar de presas como saurópodes, grandes dinossauros herbívoros.

Mas como eles estavam presentes na África e Brasil, já que essas massas de terra estão separadas pelo Oceano Atlântico? Pois bem, durante o Período Cretáceo, a América do Sul e África estavam se separando de um grande continente chamado Gondwana pela movimentação das placas tectônicas. Enquanto ainda estavam no início dessa separação, as faunas da América do Sul e África podiam intercambiar entre si, ampliando o espaço geográfico das populações. E foi assim que o registro de Carcharodontosaurus está presente no norte do Maranhão [6].



Figura 3. Réplica do crânio de Carcharodontosaurus saharicus na Universidade de Chicago. Foto por Rafael Delcourt.


A evidência de Carcharodontosaurus no Brasil ainda é muito humilde, sendo representada apenas por dentes (assim como os primeiros registros na África). É verdade que alguns fósseis foram atribuídos a Carcharodontosaurus (ou pelo menos a bichos da mesma família) em outras regiões do Brasil, mas esses materiais foram logo reinterpretados e percebeu-se que se tratavam de outro grupo de dinossauros [7]. Mas sobre essa questão vamos falar em outro post.

Atualmente são conhecidas duas espécies de Carcharodontosaurus: o C.saharicus e o C. iguidensis. Ambos foram encontrados no norte da África e diferem entre si por detalhes sutis no focinho, dentes e caixa craniana. Ambos as espécies conviveram entre si e também com o Spinosaurus e Rugops primus (em simpatria), dois grandes carnívoros durante o Cenomaniano [3].


A família do Carcharodontosaurus


Assim como todos nós temos nossas famílias e as reconhecemos pelo nome que levamos, a diversidade biológica que inclui animais e plantas, também leva nomes que identificam as variedades de famílias evolutivas. Dessa forma, conseguimos saber quem era quem e qual o grau de parentesco entre os organismos (mas isso também não depende apenas da nomenclatura, e sim de análises filogenéticas – de parentesco). Não era diferente com o Carcharodontosaurus (Fig. 4).


Figura 4. Relações filogenéticas entre Carcharodontosauridae. Retirado de Canale et al., 2015 [8].


O Carcharodontosaurus faz parte da família que leva seu nome: Carcharodontosauridae (ou em Português: carcarodontossaurídeos) e é representada por várias espécies que viveram em diferentes lugares do globo. Assim como Carcharodontosaurus, as demais espécies possuíam o plano corporal muito semelhante: grandes animais, cabeça grande triangular, braços fortes com capacidade de agarrar, dentes afiados grandes e achatados lateralmente. Algumas espécies, como o Acrocanthosaurus atokensis e o Concavenator corcovatus possuíam as vértebras dorsais (das costas) com os espinhos neurais bem altos, fazendo que com que as costas dos bichos fossem mais altas.

A família Carcharodontosauridae estava distribuída pela África, América do Sul, Europa, Ásia e América do Norte, com origem provável durante o Período Jurássico Superior na Tanzânia, África [9]. A extinção dessa família não ocorreu junto com a os demais dinossauros, mas foi antecedida pelo menos 35 milhões de anos antes [7,10] com prováveis causas ambientais, que levou também a extinção de outras espécies [11]. Mas sobre isso iremos discutir em outro post.

Os representantes da América do Sul estão distribuídos entre o norte do Brasil e sul da Argentina, na região da Patagônia. Como já falado anteriormente, o registro de Carcharodontosauridae no Brasil está limitado a alguns dentes do Maranhão, na Ilha do Cajual6, ao passo que na Argentina o registro fóssil é mais extenso e são reconhecidas três espécies: Giganotosaurus carolinii, Mapusaurus rosae e Tyrannotitan chubutensis [12]. Todos esses Carcharodontosauridae ultrapassavam 11 metros de comprimento e são considerados os predadores de topo em sua época, além de comporem o registro mais completo da família dentre todos os demais membros. Ou seja, o registro de Carcharodontosauridae na Argentina revela mais sobre a anatomia desses animais e diversidade que as demais espécies dos outros lugares do mundo.


Onde o Carcharodontosaurus estava incluído


A família Carcharodontosauridae faz parte do grande grupo de dinossauros terópodes (Theropoda), que, como já foi dito, inclui uma diversidade enorme de animais. Se consideramos os animais fósseis e viventes, iremos notar que Theropoda é o grupo mais diverso de vertebrados tetrápodes (com quatro patas), que inclui anfíbios, mamíferos e répteis. Atualmente os terópodes são representados pelas aves, que por si só já é um grupo abundante e o grupo mais numeroso de tetrápodes atuais.

Apesar de estar em meio a toda essa diversidade e variedade de animais, os Carcharodontosauridae se destacam pelo seu tamanho e massa, além de serem predadores sociais. Apesar de terem sido extintos antes da época final dos dinossauros, esses animais foram bem-sucedidos evolutivamente, com uma linhagem representativa em termos de variedade morfológica e cronológica.


Em posts futuros iremos nos aprofundar no conhecimento dos Carcharodontosauridae no que diz respeito a ecologia, morfologia e capacidade física. Fique ligado em nossos meios de comunicação e acompanhe nossos canais (Colecionadores de Ossos, Além de Plutão), nossos Blogs (Dino Hazard, Rafael Delcourt) e nossa campanha de financiamento coletivo dos colecionáveis Dino Hazard em https://www.kickante.com.br/campanhas/dinohazard-collectibles.

Um abraço a todos e até a próxima.

Rafael Delcourt

Referências


[1]. Therrien, F. & Henderson, D. M. My Theropod Is Bigger Than Yours … or Not: Estimating Body Size From Skull Length in Theropods. J. Vertebr. Paleontol. 27, 108–115 (2007).


[2]. Benson, R. B. J. & Choiniere, J. N. Rates of dinosaur limb evolution provide evidence for exceptional radiation in Mesozoic birds. Proceedings. Biol. Sci. 280, 20131780 (2013).


[3]. Brusatte, S. L. & Sereno, P. C. a New Species of Carcharodontosaurus (Dinosauria: Theropoda) From the Cenomanian of Niger and a Revision of the Genus. J. Vertebr. Paleontol. 27, 902–916 (2007).


[4]. Ibrahim, N. et al. Semiaquatic adaptations in a giant predatory dinosaur. Science (80-. ). 345, 1613–1616 (2014).


[5]. Aureliano, T. et al. Semi-aquatic adaptations in a spinosaur from the Lower Cretaceous of Brazil. Cretac. Res. 90, (2018).


[6]. Medeiros, M. A., Lindoso, R. M., Mendes, I. D. & de Souza Carvalho, I. The Cretaceous (Cenomanian) continental record of the laje do coringa flagstone (Alcântara formation), northeastern South America. J. South Am. Earth Sci. 53, 50–58 (2014).


[7]. Delcourt, R. & Grillo, O. N. Reassessment of a fragmentary maxilla attributed to Carcharodontosauridae from Presidente Prudente Formation, Brazil. Cretac. Res. 84, (2018).


[8]. Canale, J. I., Novas, F. E. & Pol, D. Osteology and phylogenetic relationships of Tyrannotitan chubutensis Novas, de Valais, Vickers-Rich and Rich, 2005 (Theropoda: Carcharodontosauridae) from the Lower Cretaceous of Patagonia, Argentina. Hist. Biol. 27, 1–32 (2015).


[9]. Csiki-Sava, Z., Brusatte, S. L. & Vasile, Ş. ‘Megalosaurus cf. superbus’ from southeastern Romania: The oldest known Cretaceous carcharodontosaurid (Dinosauria: Theropoda) and its implications for earliest Cretaceous Europe-Gondwana connections. Cretac. Res. 60, 221–238 (2016).


[10]. Novas, F. E., de Valais, S., Vickers-Rich, P. & Rich, T. A large Cretaceous theropod from Patagonia, Argentina, and the evolution of carcharodontosaurids. Naturwissenschaften 92, 226–230 (2005).


[11]. Coria, R. a. & Salgado, L. Mid-Cretaceous turnover of saurischian dinosaur communities: evidence from the Neuquen Basin. Geol. Soc. London, Spec. Publ. 252, 317–327 (2005).


[12]. Novas, F. E., Agnolín, F. L., Ezcurra, M. D., Porfiri, J. & Canale, J. I. Evolution of the carnivorous dinosaurs during the Cretaceous: The evidence from Patagonia. Cretac. Res. 45, 174–215 (2013).


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